Terça-feira, Novembro 25, 2008

Bater no Fundo

Preciso da dor, do acido que me corrói a alma. Preciso de sentir na pele as unhas cravadas do destino. Preciso de viver no limbo. Não, preciso do inferno, fogo que chamusca os cabelos e arde nos olhos. Preciso de sofrer. Preciso da tempestade, da neve, da chuva molhada, do frio penetrante. Preciso de da raiva e do ardor na vista. Quero chorar. Vou cair...






e bater no fundo.

Terça-feira, Outubro 24, 2006

Espiral de Vivências

Só te conheci muito depois de te ter conhecido. Só reparei em ti muito depois de ter reparado em ti. Passaste a existir mesmo existindo há muito. A minha vida só começou quando comecei a viver. Mesmo as palavras, as tão simples palavras, nunca antes tinham sido ditas, até que tas sussurrei ao ouvido.

É preciso saber quando uma etapa chega ao fim. Terminando capítulos, fechando portas, encerrando ciclos, não importa o que seja desde que ela acabe finalmente e deixamos para trás momentos vivido que já não importam. Tão importante como o final é o conceito de princípio. A vida não é mais do que uma espiral de finais e começos.

Para te ter a ti, terminei muitos capítulos, fechei muitas portas, encerrei muitos ciclos. Para te conhecer, reparar em ti, na tua existência, na minha vida, deixei para trás tudo o que precisava de ser fechado. Olhei em frente e quis seguir viagem, contigo ao meu lado, para sempre.

Para te soltar estas palavras ao ouvido, sussurradas com carinho, amor, ternura. Para dizer que te amo e que és a minha vida.

Segunda-feira, Maio 08, 2006

Saudosismo

Se me perguntam porque gosto assim tanto do meu país, respondo que me sobra sempre um motivo. Gostarei sempre do meu país. Amá-lo-ei mesmo na sua nudez, nos seus vícios e nas coisas luminosas. Não esquecerei aquelas pequenas coisas que crescem dentro de nós e ocupam sempre um espaço, e que ficam lá para sempre, por muitas voltas que o mundo dê. Serei português com a moral e com o espírito, e com o sangue até de quem traz em si um verso, um cheiro a mar, um fruto da sua terra.

A Última Lágrima

Corro as escadas de par em par. Olho de relance para dentro do quarto. Não estás. Chamo pelo teu nome. Cai a minha primeira lágrima, fria e gelada. Porque sofro assim? Grito na esperança de poder apagar esta dor, nem que seja por apenas um momento. Esse reconforto escapa-me por entre os dedos, confuso e fugidio. Também tu me escapaste por entre os dedos. Sim, admito, tenho parte da culpa. Mas e então tu? Não eras tu que não vinhas quando chamava pelo teu nome naquelas noites em que o escuro me apertava e em que a solidão me oprimia e subjugava? Apodreci por dentro, desfiz-me em pedaços nas tuas mãos. És como sal, ácido corrosivo e mel doce. Ai que vontade de ser cobra e de me injectar com o próprio veneno. Mal consigo recuperar o fôlego. Tenho dificuldade em respirar este pó que paira no ar e que é o que resta de ti. E danço sozinho contigo. E dançamos os dois e levantamos este pó que és tu e que me sufoca. E ficamos assim por momentos, intimamente ligados por um nada que nos separa.

Deixo o pó assentar, saio de mansinho, desço as escadas calmamente, saio pela porta e cai a minha última lágrima por ti.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

Mãos Frias, Coração Dormente

Enrolo-me mais um pouco na manta de lã grossa e colorida, saboreando o calor que vem da lareira acesa ao canto da sala. Apesar das camadas de roupa que trago vestidas tenho as mão frias e o coração teima em não aquecer, constantemente rodeado de um gelo constante e permanente. O calor que me chega das chamas vivas e vermelhas não chega sequer para me libertar destre espectro do inverno perpétuo que me arrefece até a alma. Mergulho numa tristeza profunda, que se instala no meu pensamento, e que insiste em ficar. Uma lembrança de ti, o teu sorriso glacial, as tuas palavras longínquas e distantes, até a brancura alva do teu rosto vagueiam como fragmentos perdidos dos meus sonhos e desejos. Penso no que ficou por dizer, em tudo quilo que queria deitar cá para fora e não consegui, ou naquilo que tu não quiseste ouvir, e cada vez mais, cada vez mais reparo que existe entre nós um imenso espaço vazio, imerso num frio sideral e na escuridão profunda. O arco-íris que brilha nos teus olhos, ou os reflexos dourados do teu cabelo, esses não chegam para encurtar essa distância tão grande. Porque neva cá dentro se lá fora o sol brilha com tanta intensidade? Como pode o Inverno ter chegado, se quando estamos juntos é sempre Primavera, e as flores sorriem amarelo, vermelho e azul?

Peço-te, não apague a chama que brilha em ti e me aquece as mãos, o coração e a alma...

Quarta-feira, Janeiro 04, 2006

Pessoas como Tu

Há pessoas que nos fazem sentir bem. Como se todo o seu corpo, a sua alma, ou aquilo que faz delas o que são, se oferecesse em harmonia e tivesse estado, desde sempre, à nossa inteira disposição. Estão lá quando precisamos; estão lá nos momentos mais angustiantes, mais complicados, mais exigentes, mais duros, mais assustadores, mais desafiantes. E conseguem-no com a maior das facilidades. Não falo de um pouco mais ou menos, ou de um assim assim. Conseguem fazê-lo, e muito bem por sinal, com uma tal espontâneidade e presença que não são deste mundo. E não há palavras de agradecimento perante tal gesto grandioso, doce e genuíno.

Há coisas que nunca poderei pôr em palavras, e por muito que diga ou escreva, há sempre coisas que permanecerão sempre dentro de ti e de mim. Que viverão em nós, no toque das nossas mãos, no calor dos nossos beijos, no aconchego do nosso abraço, quando encontro os teus olhos e tu os meus e o tempo pára ali, e só tu e eu existimos no mundo e pouco ou nada mais importa. Há coisas que viverão em nós, nas saudades que apertam no peito, apenas o suficiente, para lembrar que estão lá e que seria um pecado enorme esquecermo-nos delas sem saciar a fome e a sede dos reencontros. Há estes sopros no coração, suspiros apertados que nos rasgam sorrisos nos lábios como se há muito tempo não tivessem sido usados, que nos impelem a estarmos juntos, a comunicar, a enveredar por um caminho proibido e sem retorno.

Mas estás comigo, e eu estou bem.

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

Sono Reparador

Sabia que ia precisar de dormir muitas horas seguidas para conseguir superar o tumulto da viagem atribulada, a qual perdurava dentro de si e lhe atormentava não apenas um, mas todos os seus sentidos.

Quando estava prestes a dissolver-se nesse sono sem princípio nem fim, recomeçaram a girar-se na cabeça pensamentos obscuros, gritos atravessando a noite, e também as vozes daqueles que ainda agora o continuam a chamar, baixinho, junto aos ouvidos.

A ideia de ficar ali, sozinho, abandonado na presença de tantos estranhos atormentava-lhe os espírito. Decidiu agarrar na almofada e comprimi-la em volta dos ouvidos. A sua vida prestes a entrar num subterrâneo sem fundo nem altura; nunca mais ele voltaria a ser igual a si mesmo.

Então abriu muito os olhos. Queria conhecer as sombras que se modelavam à sua volta. Queria compreender e amá-las. Amá-las com ódio e odiá-las com Amor, talvez. Arrepiado, voltou a fechar os olhos. E sorriu. Não pôde resistir as sombras.

E um sorriso assim doía mais do que a dor de estar vivo. Valia talvez um pranto ou um riso convulso. E ao sentir a boca torcer-se e fazer apelo a esse pranto, ele procurou suster as emoções dentro de si. Prometeu que nunca ia chorar sobre o passado e sobre as lágrimas. E que ia ser feliz.

Domingo, Dezembro 11, 2005

Sonhos de Criança

Às vezes limito-me a tentar escrever textos que tenham o brilho de um sorriso, o calor de um abraço, aquela sensação de conforto depois de um carinho de mão quando nos magoamos a brincar. Às vezes proponho-me, entre momentos de angústia e desespero, a relembrar os tempos idos de criança, quando corria atrás de bichos-de-conta e construía castelos de lego. Acho que a minha imaginação vem daí, de brincar aos agricultores, de sentir o cheiro da terra molhada, de subir às árvores e brincar no jardim, de inventar mil e uma coisas diferentes para fazer.

Agora que penso, lembro-me de tantas brincadeiras feitas na companhia da solidão, das conversas comigo mesmo, aprender a brincar sozinho, fazer o bom e o mau. Grande parte da minha personalidade vem daí, criei sonhos, criei carências. É claro que nunca me faltaram amigos, mas aqueles momentos que passei sozinho marcaram-me para sempre.

Mas é no tempo de menino que mais sonhamos, que mais ingénuos somos, que mais nos rimos. Rimo-nos de um abraço dos pais, do arroz-doce da avó e das prendas do avô: um berlinde, um chupa-chupa vermelho com sabor a morango... E dos desenhos animados! Quem não se lembra de se levantar bem cedinho e ficar à espera em frente à televisão do início de emissão, com aquelas listas coloridas em fundo preto?

Sempre que me lembro de tudo isto, pinto um quadro a aguarela na mente com os dedos, esqueço tudo o que me aflige e sou feliz.

Ter sido criança, de facto, foi uma das melhores coisas que me aconteceu na vida.

Segunda-feira, Novembro 07, 2005

Cartas de Amor

Um dia recebi uma carta com o teu cheiro. Uma carta escrita a negro e a esferográfica mordiscada na ponta. Uma carta em papel amarelado comprado numa daquelas livrarias antigas, dentro de um envelope também ele amarelado, selado com lacre vermelho.

Não tinhas coragem de me dizer nos olhos, não tens coragem de me olhar nos olhos e de dizer aquilo que escreveste. Custa-me, custa-me perceber que cometi o erro de te sorrir com inocência e sinceridade, que cometi o erro de te abraçar com o olhar e com as palavras. Erro após erro, fui construíndo uma história feita de pequenas histórias de finais tristes, onde tu és personagem, e onde o herói nunca é herói... porque fui bom, carinhoso, porque me preocupo...
Sabes que vou para a cama sem sono? Sabes que choro e derramo lágrimas na minha almofada? Sabes que dói como se não ouvesse um amanhã?

A que me agarro eu? A um sonho que já nem sonhado pode ser? A uma ilusão que me magoa todos os dias... com que fico eu? Comigo? Com alguém que não aguenta ficar sozinho e a quem a palavra rejeição é um pesadelo impossível de suportar?

Será que tens a sensibilidade de te rever neste texto? Terás tu, que nada tens a ver comigo ou com o que sinto, a sensibilidade para perceberes o que me aflige? Terás tu quem eu quero perto de mim, a sensibilidade de me acarinhares? Desta vez preciso de mais, desta vez o teu silêncio não basta... desta vez necessito do teu calor.

Mas não! Não me vais afectar desta maneira! A que me agarro eu, perguntas tu? À vida, a cada dia, um após o outro e um de cada vez... À sabedoria e força de ultrapassar a dor, a perda de um sonho. Serei vitorioso cada vez que mais um dia acaba em que tentei sorrir... Porque viver é tentar a cada dia espantar as tristezas e sorrir, não só para os outros, mas principalmente para nós mesmos.

Não te guardo raiva, mas a tua carta arde na fogueira...

Domingo, Setembro 11, 2005

Ausência

Há alturas em que nada importa, em que tudo é reduzido à sua desprezível insignificância. Também tu deves ter alturas como estas. Em que há pessoas que estão longe, mas que é como se estivessem ao nosso lado. E não digo isto só por dizer. É a verdade. É como se lá no fundo sentisse o estranho poder das coisas, mesmo quando parece que já as esquecemos. E são essas coisas que nos fazem distinguir aquilo que não desgostamos, do que realmente queremos. O meu problema não é que as coisas não me interessem, mas muitas vezes não as entendo - tal como escrever. Escrevo porque quero ou porque simplesmente me lembrei. Não precisa de fazer sentido, apenas porque é uma fuga à realidade que por vezes choca. As coisas que nos são queridas ficam na memória e marcam, mesmo quando caem na ausência. E se às vezes há umas que correm menos bem, paciência! As coisas vão e vêm, o tempo anda para a frente, não para trás. Uns passeiam-se, outros fazem contas, e outros vivem.
Mas não me esqueço... A ausência não é o entorpecimento da memória.

Terça-feira, Setembro 06, 2005

O Equilíbrio

Flutuam pedaços de nuvem na minha cabeça. Penso no que passou e a memória cai sobre mim como uma neblina fria e triste. Mas guardo as recordações lá no fundo e tento não pensar em mais nada. O futuro é incerto, e o passado carrega dor e é cinzento escuro. A memória, mesmo das coisas mais terriveis, é um elemento activo, enquanto que a imaginação apenas contribui para a desesperação ou a sonolência do desespero. Tento então encontrar uma maneira de equilibrar os pratos da balança. Um lado não pode pesar mais que outro...

Sexta-feira, Julho 29, 2005

Espelho

Dispo as roupas que trago vestidas assim que entro em casa. Subo as escadas que levam ao primeiro andar com passos curtos e decididos, meus pés nus saboreando o calor suave do tapete de arraiolos. Abro a porta do quarto. Estou sozinho... olho-me ao espelho e não te vejo.

O meu problema foi esquecer-te. Tentava não pensar em ti sempre e a toda a hora. Era a única maneira. Queria ser capaz de te mandar embora facilmente. Precisava de ti. Tu sustentavas-me na tua maldade inocente. Inocente porque não tinhas noção do mal que me causavas. E quando to tentava explicar, tu justificavas com um 'mas tu gostas'.

Aproximei-me de ti. Tu fingias que não sabias, mas no fundo foi sempre assim. As palavras em nós morreram. As palavras não são eternas. Tentaste um beijo e com ele a vontade de viver. Mas de mim, tentaste mas não conseguiste, arrancar-me uma última palavra.

Agora, revejo-me no espelho, como alma única, e não te vendo, sei que por fim te esqueci.

Quinta-feira, Julho 28, 2005

Sonhos

Eu sei que não há casas feitas de açúcar ou gengibre, que não há princesas, que não há sapos que se transformam em príncipes, que não há carochinhas nem capuchinhos vermelhos.

Sei também que não há lobos maus, demónios debaixo da cama, bruxas velhas e más, fantasmas e gargalhadas sinistras.

Eu sei que o tempo não existe e o espaço não muda.

Sei que as histórias que contavas não passavam de anestesia para dormir. Pegavas em mim, frágil e ansioso por saber e levavas-me a viajar pelo universo profundo. Manipulavas os meus sonhos e moldavas a minha mente e fazias-me esquecer tudo.

Vivia em casas de chocolate, comia algodão-doce-cor-de-rosa-das-nuvens e bebia a chuva-chá-de-camomila. O tempo parava um bocadinho e eu também...

Eu sei que era assim, e que as saudades ficam do tempo em que eu adormecia trocando todos os sentidos, comendo com os olhos, saboreando com as mãos e vendo com o coração. Sinto saudades de parar toda a a roda infinita das imagens reais, e de deixar-me cair sobre a nuvem dos sonhos-cor-de-arco-íris. Saudades de evitar as palavras e de fazer da vida uma metáfora de histórias na minha cabeça.

O Vazio

'Sim, amanhã estaremos juntos'. As tuas palavras provocam em mim um remoinho de felicidade. Tremo de excitação na antecipada expectativa de te voltar a ter nos meus braços. Na minha imaginação criam-se quadros coloridos, pintados de sorrisos brilhantes e de um cheiro a azul e a mar. Sussurro uma meia resposta 'Ainda bem'.

A noite custa-me a passar. Penso em não pensar em ti, mas a tua imagem persegue-me nos sonhos acordados que revivo vezes sem conta. A noite não passa e o nascer do dia não chega mais. Sou invadido por sentimentos contraditórios. Penso em desistir. Penso em avançar. Quando finalmente adormeço, sinto-me a acordar poucos minutos depois. Mas o dia já acordou também, e a escuridão deu lugar a um azul cinzento. Chove lá fora e fico gelado cá dentro. Com frio e medo de tudo o que há-de vir, imito um encontro improvisado, faço de mim e de ti, ensaio perguntas e respostas e sinto-me preparado e não confiante, feliz e com medo.

O tempo teima em passar devagar. Sinto-me desconcentrado e o dia rendeu muito pouco. Não pensei em nada e pensei em tudo. Levanto-me da cadeira cada dez minutos e passeio pelos corredores, reconstruindo as frases feitas anteriormente. Sobressalto-me com o toque do telefone, com o barulho do lápis no papel, com o barulho do silêncio. Finalmente terminaram os ciclos de dez minutos, e saí porta fora, para a claridade branca que quase me cegou. As pessoas olham para mim, todos olham para mim. Sinto um peso enorme nos ombros e não conheço ninguém, não vejo ninguém.

Corro as escadas duas a duas em direcção a casa. Espero uma pista, um indício teu. Anseio secretamente que tenhas de cancelar o convite por uma razão qualquer, não importa qual. Abro a torneira de água quente e encho a banheira. Mergulho na água tépida o corpo que pedia por um banho de sais e cheiros e dúvidas e medos e prazeres escondidos. Ofereci-me dez minutos de imersão, que me acalmaram a alma e calaram, se bem que temporariamente, as minhas dúvidas.

Visto-me depressa, a hora aproxima-se. Ponho algumas gotas daquele perfume que sempre disseste que gostavas. Olho para o espelho antes de sair. Componho as calças e a camisa e sorrio.

Pego no carro e paro à tua porta. Convido-te a descer. Assim que te sentas no banco esqueço todas as frases ensaiadas na loucura e dou-te um beijo. Simples e fugidio mas, como sempre, a deixar marcas profundas. Nada mais interessa. Conversamos os dois, eu de boca fechada e tu com a conversa toda nesses lábios que amo e desespero. E ficaria assim para sempre, saboreando o pedaço de ti que deixas cravado no meu ser.

O melhor amor é louco... tão mais amor quanto mais louco... e o que é o vazio senão nós mesmos?

Eu e os outros

Acordo de repente. A minha cama jaz estática. Escrevo à pressa um sonho que teima em apagar-se da mente.

Os sonhos são estranhos e não duram mais que cinco minutos quando entro na realidade.

Passeio na rua apesar do calor que se faz sentir. Caminho em direcção à paragem de autocarro que vejo todos os dias à minha porta. Agora é um banco de jardim. De certeza mudaram-no enquanto dormia. Fecho os olhos e tento lembrar-me do sonho desta noite. Entro na camioneta. Pago ao condutor com uma pedaço de sonho, ele imita um sorriso, fecha as portas, e parte levando com ele o tempo.

O ar é feito de água fresca, e a própria água evapora-se do meu corpo de maneira diferente das pessoas que se cruzam comigo, subindo as ruas com flores nas mãos.

Ninguém fala, os carros não fazem barulho nem fumo, os bebés não choram, os telefones não tocam.

Está demasiado calor para passear, mas as pessoas passeiam na estrada e matam o tempo. Algumas sentam-se no banco de jardim e esperam também o tempo, até que o autocarro chegue um dia.

Quarta-feira, Julho 27, 2005

Escrevo

Escrevo... e as palavras fascinam e iludem pois imitam a face. Imitam os sentimentos. Arrancam as emoções à força e a frio e fazem doer por dentro e aliviam. Porque nas palavras que escrevo encontro meias palavras não ditas, palavras que ficam engasgadas e presas dentro de mim. Escrevo por que não to digo. E porque to quero dizer.

Escrevo... e o meu silêncio hoje não é branco, é negro, e com ele pinto as letras uma a uma, junto-as, e as palavras que deixo na folha são o reflexo incessante da minha alma.

Fico à espera que me leias por dentro, que me rasgues e me descubras. Fujo do amanhã. E tenho medo. Um medo enorme do abismo que me sorri lá no fundo, que me atrai. Fico à espera que as minhas palavras te procurem e te encontrem.

Domingo, Julho 10, 2005

A Partida

A partida será para mim decerto muito difícil.
Olho para trás e penso em todos o momentos especiais que partilhámos juntos, e a tristeza não tarda a inundar-me a face.
Quando me olhas não consigo ver o presente, apenas o futuro. Quando sorris, esqueço tudo e só penso na saudade que vou ter. Quando me falas, só penso que não volto a ouvir a tua voz.
E um egoísmo imenso cresce dentro de mim, corrói-me a alma, destrói-me o espírito. Egoísmo de te querer só para mim, de querer que o espaço não nos separe, de querer que o tempo pare e que fiquemos para sempre os dois amantes eternos.
Mas sei também que é um mal necessário. Que mesmo que ficasse as coisas nem sempre são como queremos. Sei que um dia poderei voltar, diferente sem dúvida, mas na esperança de que possamos voltar a ser, de novo, unos...

Sábado, Julho 09, 2005

Saudade

Ainda hoje recordo aquele dia como se hoje fosse, e as memórias frescas vagueiam pela mente e pintam-me os sonhos de rosa e verde.
Olho para trás e lembro-me de ti. Recordo.

Juntos a olhar as nuvens do céu, de barriga para o ar, falamos de banalidades e felizes acasos. Tu levantas-te de um rasgo, pegas-me na mão e dizes: "Vem, vamos conhecer o mundo". E eu vou, e estou contente, porque todo o meu mundo é o teu, e todos os meus sonhos te pertencem. Voamos longe, tu de mãos dadas comigo e eu de esperança dada contigo. Pegas nas palavras e sussurras-me ao ouvido. Belas! Que fiquem assim para sempre. Olhas-me nos olhos e sei que não me vou perder na escuridão, pois eles me iluminam o caminho. Mostras-me o teu mundo, agora nosso, e exploramos todos os seus recantos. Partilhamos um êxtase brilhante, de corpos unidos e corações síncronos, a bater depressa. Levas-me ao infinito e mais tarde voltamos os dois, satisfeitos, e descansamos...

Recordo porque agora não estás comigo, e a saudade aperta-me o peito e o meu coração chora um choro silencioso e dorido. E há uma vontade que perdura; a vontade de querer saber onde está o amor escondido e que hoje me faz sofrer. Mas digo ao coração: "Aguenta! que a tormenta um dia há de passar". E a saudade não é mar, tem fim, é como a onda que chega à praia e morre na areia. Só espero que não tarde...

Sexta-feira, Julho 08, 2005

Acredito

Acredito que há algo que nos une e é maior que a alma. Acredito que chego ao infinito e toco o que está mais além, e que me basta esticar o braço para o alcançar. Acredito que há coisas belas, e que tu és uma delas. Acredito que tudo é possível, que tu e eu também. Acredito que sim...

Pego na corda que nos une e aperto mais um pouco. Pego no que está para além e trago-o comigo. Pego em ti e desenho-te com palavras. Pego no sonho e tranformo-o em realidade...

Alcanço-te. És minha. Não estás longe. Estás perto e comigo...

Acredito...

Esperança não é a última a morrer

Esperança jaz caída no chão. Corro a salvá-la. Mais uma vítima de atropelamento de Vida de certeza. Mas Esperança não respira, o coração não bate. Peço ajuda. Mas ninguém me acode, estou só com Esperança. Inicio as manobras de segurança ensinadas há muito: 15-2, 15-2, 15-2, ..., quantos já passaram? Esperança não reage...

Relembro os dias que passámos os dois, cheios de ideias na cabeça, com um rumo a seguir. Quando tricotávamos a manta de retalhos dos sonhos, com lã azul e laranja, verde e amarela, cor de arco-íris e pensávamos juntos os dois no futuro. Como ia ser belo, como tudo seria melhor, mais brilhante, menos sofucante. Estávamos os dois de mãos dadas e de olhos postos num presente que havia de chegar, mais cedo ou mais tarde. E eu gostava, e estava feliz na minha ignorância.

E tu Vida, que vieste e me levas agora a minha Esperança. Que me roubas a única razão de viver. Que me roubas os sonhos. Que me tiras os olhos do futuro e me fazes olhar apenas para o presente e passado. Tu! Assassina! Porque tens de ser tão cruel? Esse contrato que fiz contigo não te dá o direito de me levares Esperança. Tu não me mereces Vida, eu sou bom demais, e eu não te mereço, tu és má demais.

Relembro estarmos os dois à beira-mar, a ouvir o som das ondas e o cheiro a maresia. Deixávamos pegadas na areia molhada e corríamos de mão dadas praia fora. Não tínhamos razão para estar descontentes, até pelo contrário. E quando ao final da tarde nos sentávamos os dois juntos a olhar o mar de azuis profundos, tão intensos, ele entrava pelos olhos sem pudor e nos deixava quase inertes sobre a areia, como amantes na ressaca do amor.

15-2, 15-2, 15-2, ..., a ajuda não chega, e eu estou tentado a deixar-te partir, como mais uma vítima nas teias da Vida. As forças faltam-me e só desejo que tudo acabe rapidamente. Mas não consigo. Não, sou demasiado fraco para me render. Desmaio de cansaço.

Esperança morreu...