sexta-feira, dezembro 16, 2005

Sono Reparador

Sabia que ia precisar de dormir muitas horas seguidas para conseguir superar o tumulto da viagem atribulada, a qual perdurava dentro de si e lhe atormentava não apenas um, mas todos os seus sentidos.

Quando estava prestes a dissolver-se nesse sono sem princípio nem fim, recomeçaram a girar-se na cabeça pensamentos obscuros, gritos atravessando a noite, e também as vozes daqueles que ainda agora o continuam a chamar, baixinho, junto aos ouvidos.

A ideia de ficar ali, sozinho, abandonado na presença de tantos estranhos atormentava-lhe os espírito. Decidiu agarrar na almofada e comprimi-la em volta dos ouvidos. A sua vida prestes a entrar num subterrâneo sem fundo nem altura; nunca mais ele voltaria a ser igual a si mesmo.

Então abriu muito os olhos. Queria conhecer as sombras que se modelavam à sua volta. Queria compreender e amá-las. Amá-las com ódio e odiá-las com Amor, talvez. Arrepiado, voltou a fechar os olhos. E sorriu. Não pôde resistir as sombras.

E um sorriso assim doía mais do que a dor de estar vivo. Valia talvez um pranto ou um riso convulso. E ao sentir a boca torcer-se e fazer apelo a esse pranto, ele procurou suster as emoções dentro de si. Prometeu que nunca ia chorar sobre o passado e sobre as lágrimas. E que ia ser feliz.

domingo, dezembro 11, 2005

Sonhos de Criança

Às vezes limito-me a tentar escrever textos que tenham o brilho de um sorriso, o calor de um abraço, aquela sensação de conforto depois de um carinho de mão quando nos magoamos a brincar. Às vezes proponho-me, entre momentos de angústia e desespero, a relembrar os tempos idos de criança, quando corria atrás de bichos-de-conta e construía castelos de lego. Acho que a minha imaginação vem daí, de brincar aos agricultores, de sentir o cheiro da terra molhada, de subir às árvores e brincar no jardim, de inventar mil e uma coisas diferentes para fazer.

Agora que penso, lembro-me de tantas brincadeiras feitas na companhia da solidão, das conversas comigo mesmo, aprender a brincar sozinho, fazer o bom e o mau. Grande parte da minha personalidade vem daí, criei sonhos, criei carências. É claro que nunca me faltaram amigos, mas aqueles momentos que passei sozinho marcaram-me para sempre.

Mas é no tempo de menino que mais sonhamos, que mais ingénuos somos, que mais nos rimos. Rimo-nos de um abraço dos pais, do arroz-doce da avó e das prendas do avô: um berlinde, um chupa-chupa vermelho com sabor a morango... E dos desenhos animados! Quem não se lembra de se levantar bem cedinho e ficar à espera em frente à televisão do início de emissão, com aquelas listas coloridas em fundo preto?

Sempre que me lembro de tudo isto, pinto um quadro a aguarela na mente com os dedos, esqueço tudo o que me aflige e sou feliz.

Ter sido criança, de facto, foi uma das melhores coisas que me aconteceu na vida.