segunda-feira, maio 08, 2006

A Última Lágrima

Corro as escadas de par em par. Olho de relance para dentro do quarto. Não estás. Chamo pelo teu nome. Cai a minha primeira lágrima, fria e gelada. Porque sofro assim? Grito na esperança de poder apagar esta dor, nem que seja por apenas um momento. Esse reconforto escapa-me por entre os dedos, confuso e fugidio. Também tu me escapaste por entre os dedos. Sim, admito, tenho parte da culpa. Mas e então tu? Não eras tu que não vinhas quando chamava pelo teu nome naquelas noites em que o escuro me apertava e em que a solidão me oprimia e subjugava? Apodreci por dentro, desfiz-me em pedaços nas tuas mãos. És como sal, ácido corrosivo e mel doce. Ai que vontade de ser cobra e de me injectar com o próprio veneno. Mal consigo recuperar o fôlego. Tenho dificuldade em respirar este pó que paira no ar e que é o que resta de ti. E danço sozinho contigo. E dançamos os dois e levantamos este pó que és tu e que me sufoca. E ficamos assim por momentos, intimamente ligados por um nada que nos separa.

Deixo o pó assentar, saio de mansinho, desço as escadas calmamente, saio pela porta e cai a minha última lágrima por ti.