sexta-feira, dezembro 16, 2005

Sono Reparador

Sabia que ia precisar de dormir muitas horas seguidas para conseguir superar o tumulto da viagem atribulada, a qual perdurava dentro de si e lhe atormentava não apenas um, mas todos os seus sentidos.

Quando estava prestes a dissolver-se nesse sono sem princípio nem fim, recomeçaram a girar-se na cabeça pensamentos obscuros, gritos atravessando a noite, e também as vozes daqueles que ainda agora o continuam a chamar, baixinho, junto aos ouvidos.

A ideia de ficar ali, sozinho, abandonado na presença de tantos estranhos atormentava-lhe os espírito. Decidiu agarrar na almofada e comprimi-la em volta dos ouvidos. A sua vida prestes a entrar num subterrâneo sem fundo nem altura; nunca mais ele voltaria a ser igual a si mesmo.

Então abriu muito os olhos. Queria conhecer as sombras que se modelavam à sua volta. Queria compreender e amá-las. Amá-las com ódio e odiá-las com Amor, talvez. Arrepiado, voltou a fechar os olhos. E sorriu. Não pôde resistir as sombras.

E um sorriso assim doía mais do que a dor de estar vivo. Valia talvez um pranto ou um riso convulso. E ao sentir a boca torcer-se e fazer apelo a esse pranto, ele procurou suster as emoções dentro de si. Prometeu que nunca ia chorar sobre o passado e sobre as lágrimas. E que ia ser feliz.