sexta-feira, julho 29, 2005

Espelho

Dispo as roupas que trago vestidas assim que entro em casa. Subo as escadas que levam ao primeiro andar com passos curtos e decididos, meus pés nus saboreando o calor suave do tapete de arraiolos. Abro a porta do quarto. Estou sozinho... olho-me ao espelho e não te vejo.

O meu problema foi esquecer-te. Tentava não pensar em ti sempre e a toda a hora. Era a única maneira. Queria ser capaz de te mandar embora facilmente. Precisava de ti. Tu sustentavas-me na tua maldade inocente. Inocente porque não tinhas noção do mal que me causavas. E quando to tentava explicar, tu justificavas com um 'mas tu gostas'.

Aproximei-me de ti. Tu fingias que não sabias, mas no fundo foi sempre assim. As palavras em nós morreram. As palavras não são eternas. Tentaste um beijo e com ele a vontade de viver. Mas de mim, tentaste mas não conseguiste, arrancar-me uma última palavra.

Agora, revejo-me no espelho, como alma única, e não te vendo, sei que por fim te esqueci.

quinta-feira, julho 28, 2005

Sonhos

Eu sei que não há casas feitas de açúcar ou gengibre, que não há princesas, que não há sapos que se transformam em príncipes, que não há carochinhas nem capuchinhos vermelhos.

Sei também que não há lobos maus, demónios debaixo da cama, bruxas velhas e más, fantasmas e gargalhadas sinistras.

Eu sei que o tempo não existe e o espaço não muda.

Sei que as histórias que contavas não passavam de anestesia para dormir. Pegavas em mim, frágil e ansioso por saber e levavas-me a viajar pelo universo profundo. Manipulavas os meus sonhos e moldavas a minha mente e fazias-me esquecer tudo.

Vivia em casas de chocolate, comia algodão-doce-cor-de-rosa-das-nuvens e bebia a chuva-chá-de-camomila. O tempo parava um bocadinho e eu também...

Eu sei que era assim, e que as saudades ficam do tempo em que eu adormecia trocando todos os sentidos, comendo com os olhos, saboreando com as mãos e vendo com o coração. Sinto saudades de parar toda a a roda infinita das imagens reais, e de deixar-me cair sobre a nuvem dos sonhos-cor-de-arco-íris. Saudades de evitar as palavras e de fazer da vida uma metáfora de histórias na minha cabeça.

O Vazio

'Sim, amanhã estaremos juntos'. As tuas palavras provocam em mim um remoinho de felicidade. Tremo de excitação na antecipada expectativa de te voltar a ter nos meus braços. Na minha imaginação criam-se quadros coloridos, pintados de sorrisos brilhantes e de um cheiro a azul e a mar. Sussurro uma meia resposta 'Ainda bem'.

A noite custa-me a passar. Penso em não pensar em ti, mas a tua imagem persegue-me nos sonhos acordados que revivo vezes sem conta. A noite não passa e o nascer do dia não chega mais. Sou invadido por sentimentos contraditórios. Penso em desistir. Penso em avançar. Quando finalmente adormeço, sinto-me a acordar poucos minutos depois. Mas o dia já acordou também, e a escuridão deu lugar a um azul cinzento. Chove lá fora e fico gelado cá dentro. Com frio e medo de tudo o que há-de vir, imito um encontro improvisado, faço de mim e de ti, ensaio perguntas e respostas e sinto-me preparado e não confiante, feliz e com medo.

O tempo teima em passar devagar. Sinto-me desconcentrado e o dia rendeu muito pouco. Não pensei em nada e pensei em tudo. Levanto-me da cadeira cada dez minutos e passeio pelos corredores, reconstruindo as frases feitas anteriormente. Sobressalto-me com o toque do telefone, com o barulho do lápis no papel, com o barulho do silêncio. Finalmente terminaram os ciclos de dez minutos, e saí porta fora, para a claridade branca que quase me cegou. As pessoas olham para mim, todos olham para mim. Sinto um peso enorme nos ombros e não conheço ninguém, não vejo ninguém.

Corro as escadas duas a duas em direcção a casa. Espero uma pista, um indício teu. Anseio secretamente que tenhas de cancelar o convite por uma razão qualquer, não importa qual. Abro a torneira de água quente e encho a banheira. Mergulho na água tépida o corpo que pedia por um banho de sais e cheiros e dúvidas e medos e prazeres escondidos. Ofereci-me dez minutos de imersão, que me acalmaram a alma e calaram, se bem que temporariamente, as minhas dúvidas.

Visto-me depressa, a hora aproxima-se. Ponho algumas gotas daquele perfume que sempre disseste que gostavas. Olho para o espelho antes de sair. Componho as calças e a camisa e sorrio.

Pego no carro e paro à tua porta. Convido-te a descer. Assim que te sentas no banco esqueço todas as frases ensaiadas na loucura e dou-te um beijo. Simples e fugidio mas, como sempre, a deixar marcas profundas. Nada mais interessa. Conversamos os dois, eu de boca fechada e tu com a conversa toda nesses lábios que amo e desespero. E ficaria assim para sempre, saboreando o pedaço de ti que deixas cravado no meu ser.

O melhor amor é louco... tão mais amor quanto mais louco... e o que é o vazio senão nós mesmos?

Eu e os outros

Acordo de repente. A minha cama jaz estática. Escrevo à pressa um sonho que teima em apagar-se da mente.

Os sonhos são estranhos e não duram mais que cinco minutos quando entro na realidade.

Passeio na rua apesar do calor que se faz sentir. Caminho em direcção à paragem de autocarro que vejo todos os dias à minha porta. Agora é um banco de jardim. De certeza mudaram-no enquanto dormia. Fecho os olhos e tento lembrar-me do sonho desta noite. Entro na camioneta. Pago ao condutor com uma pedaço de sonho, ele imita um sorriso, fecha as portas, e parte levando com ele o tempo.

O ar é feito de água fresca, e a própria água evapora-se do meu corpo de maneira diferente das pessoas que se cruzam comigo, subindo as ruas com flores nas mãos.

Ninguém fala, os carros não fazem barulho nem fumo, os bebés não choram, os telefones não tocam.

Está demasiado calor para passear, mas as pessoas passeiam na estrada e matam o tempo. Algumas sentam-se no banco de jardim e esperam também o tempo, até que o autocarro chegue um dia.

quarta-feira, julho 27, 2005

Escrevo

Escrevo... e as palavras fascinam e iludem pois imitam a face. Imitam os sentimentos. Arrancam as emoções à força e a frio e fazem doer por dentro e aliviam. Porque nas palavras que escrevo encontro meias palavras não ditas, palavras que ficam engasgadas e presas dentro de mim. Escrevo por que não to digo. E porque to quero dizer.

Escrevo... e o meu silêncio hoje não é branco, é negro, e com ele pinto as letras uma a uma, junto-as, e as palavras que deixo na folha são o reflexo incessante da minha alma.

Fico à espera que me leias por dentro, que me rasgues e me descubras. Fujo do amanhã. E tenho medo. Um medo enorme do abismo que me sorri lá no fundo, que me atrai. Fico à espera que as minhas palavras te procurem e te encontrem.

domingo, julho 10, 2005

A Partida

A partida será para mim decerto muito difícil.
Olho para trás e penso em todos o momentos especiais que partilhámos juntos, e a tristeza não tarda a inundar-me a face.
Quando me olhas não consigo ver o presente, apenas o futuro. Quando sorris, esqueço tudo e só penso na saudade que vou ter. Quando me falas, só penso que não volto a ouvir a tua voz.
E um egoísmo imenso cresce dentro de mim, corrói-me a alma, destrói-me o espírito. Egoísmo de te querer só para mim, de querer que o espaço não nos separe, de querer que o tempo pare e que fiquemos para sempre os dois amantes eternos.
Mas sei também que é um mal necessário. Que mesmo que ficasse as coisas nem sempre são como queremos. Sei que um dia poderei voltar, diferente sem dúvida, mas na esperança de que possamos voltar a ser, de novo, unos...

sábado, julho 09, 2005

Saudade

Ainda hoje recordo aquele dia como se hoje fosse, e as memórias frescas vagueiam pela mente e pintam-me os sonhos de rosa e verde.
Olho para trás e lembro-me de ti. Recordo.

Juntos a olhar as nuvens do céu, de barriga para o ar, falamos de banalidades e felizes acasos. Tu levantas-te de um rasgo, pegas-me na mão e dizes: "Vem, vamos conhecer o mundo". E eu vou, e estou contente, porque todo o meu mundo é o teu, e todos os meus sonhos te pertencem. Voamos longe, tu de mãos dadas comigo e eu de esperança dada contigo. Pegas nas palavras e sussurras-me ao ouvido. Belas! Que fiquem assim para sempre. Olhas-me nos olhos e sei que não me vou perder na escuridão, pois eles me iluminam o caminho. Mostras-me o teu mundo, agora nosso, e exploramos todos os seus recantos. Partilhamos um êxtase brilhante, de corpos unidos e corações síncronos, a bater depressa. Levas-me ao infinito e mais tarde voltamos os dois, satisfeitos, e descansamos...

Recordo porque agora não estás comigo, e a saudade aperta-me o peito e o meu coração chora um choro silencioso e dorido. E há uma vontade que perdura; a vontade de querer saber onde está o amor escondido e que hoje me faz sofrer. Mas digo ao coração: "Aguenta! que a tormenta um dia há de passar". E a saudade não é mar, tem fim, é como a onda que chega à praia e morre na areia. Só espero que não tarde...

sexta-feira, julho 08, 2005

Acredito

Acredito que há algo que nos une e é maior que a alma. Acredito que chego ao infinito e toco o que está mais além, e que me basta esticar o braço para o alcançar. Acredito que há coisas belas, e que tu és uma delas. Acredito que tudo é possível, que tu e eu também. Acredito que sim...

Pego na corda que nos une e aperto mais um pouco. Pego no que está para além e trago-o comigo. Pego em ti e desenho-te com palavras. Pego no sonho e tranformo-o em realidade...

Alcanço-te. És minha. Não estás longe. Estás perto e comigo...

Acredito...

Esperança não é a última a morrer

Esperança jaz caída no chão. Corro a salvá-la. Mais uma vítima de atropelamento de Vida de certeza. Mas Esperança não respira, o coração não bate. Peço ajuda. Mas ninguém me acode, estou só com Esperança. Inicio as manobras de segurança ensinadas há muito: 15-2, 15-2, 15-2, ..., quantos já passaram? Esperança não reage...

Relembro os dias que passámos os dois, cheios de ideias na cabeça, com um rumo a seguir. Quando tricotávamos a manta de retalhos dos sonhos, com lã azul e laranja, verde e amarela, cor de arco-íris e pensávamos juntos os dois no futuro. Como ia ser belo, como tudo seria melhor, mais brilhante, menos sofucante. Estávamos os dois de mãos dadas e de olhos postos num presente que havia de chegar, mais cedo ou mais tarde. E eu gostava, e estava feliz na minha ignorância.

E tu Vida, que vieste e me levas agora a minha Esperança. Que me roubas a única razão de viver. Que me roubas os sonhos. Que me tiras os olhos do futuro e me fazes olhar apenas para o presente e passado. Tu! Assassina! Porque tens de ser tão cruel? Esse contrato que fiz contigo não te dá o direito de me levares Esperança. Tu não me mereces Vida, eu sou bom demais, e eu não te mereço, tu és má demais.

Relembro estarmos os dois à beira-mar, a ouvir o som das ondas e o cheiro a maresia. Deixávamos pegadas na areia molhada e corríamos de mão dadas praia fora. Não tínhamos razão para estar descontentes, até pelo contrário. E quando ao final da tarde nos sentávamos os dois juntos a olhar o mar de azuis profundos, tão intensos, ele entrava pelos olhos sem pudor e nos deixava quase inertes sobre a areia, como amantes na ressaca do amor.

15-2, 15-2, 15-2, ..., a ajuda não chega, e eu estou tentado a deixar-te partir, como mais uma vítima nas teias da Vida. As forças faltam-me e só desejo que tudo acabe rapidamente. Mas não consigo. Não, sou demasiado fraco para me render. Desmaio de cansaço.

Esperança morreu...

quinta-feira, julho 07, 2005

Promessas

Promete que não me deixas.
Promete que o que dizes é verdade.
Promete que podemos ficar assim os dois para sempre, juntos e felizes.
Promete que serás sempre minha.
Promete que não apagas esse sorriso que me faz ficar louco de alegria.
Promete que os teus lábios serão sempre doces.
Promete que me iluminas sempre o caminho.

Promete que não me deixas na escuridão.
Promete que os teu lábios nunca amarguem.
Promete que esse sorriso é sincero.
Promete que eu serei sempre teu.
Promete que quando estamos juntos, é isso o que queres.
Promete que o que não dizes não importa.
Promete que me amas...

Alvorada

E eis que o primeiro raio de sol entra pela persiana meio fechada e me acorda de um sonho desperto. Lá fora o dia começa devagar, pesaroso, e eu mal entrei na noite. E é à noite que vagueio por estes corredores labirínticos da minha mente e me perco por horas a fio. Pensamentos que voam baixo e chegam longe, chegam lá ao fundo, ao infinito.

E sei, ah como sei!, que a noite não tarda a findar, mas para mim ainda agora começou...

Ser feliz

Agora estou feliz. Há palavras que existem em mim e que sabem a sonhos, a esperança... mas quando calas com um beijo e fogem para a tua boca sabem a amor, quando mas sussurras ao ouvido, mesmo sem as dizer, eu sei que lá estão e que me sabem a destino. Há palavras que saboreio no teu sorriso, que as provo quando mergulho os meus olhos nos teus e me sinto a navegar na tua alma.

Agora estou feliz. Estas palavras nascem dentro de mim e ficam cá dentro mesmo depois de as levarmos a conhecer outra pessoa. Palavras sentidas que batem à porta e pedem para entrar, e que não podemos deixar lá fora. Exigem tudo de nós, exigem partilha, mas fazem os nossos dias e os dias daqueles que amamos mais coloridos. E nos unem, cada vez mais, sem pressas, porque temos todo o tempo do mundo para estar juntos.

São as palavras que me fazem feliz, que me aproximam cada vez mais de ti. Palavras como Amo-te, que me tentam a aproximar-me, a prová-las na tua boca para sentir que são iguais às minhas, e que querem que fiquemos juntos...

quarta-feira, julho 06, 2005

Palavras especiais

Estas palavras não são minhas. Digo isto porque não as sinto a fazer sentido cá dentro à medida que escrevo. O mero fluir das palavras faz-me confusão. Eu não sou assim, este não sou eu. Esta é a única explicação.

E que outra poderá haver? Serei eu mais do que um peão nesta vida?

Cada qual é especial à sua maneira. Somos portanto todos especiais. Oh júbilo! Os meus actos serão portanto justificados por esta razão. Não é defeito, é feitio. E que feitio...

O equilíbrio da alma

Folhas caídas, ficam esquecidas, no âmago do meu ser. Sentimentos que perduram, ideias que flutuam na imensidão do pensamento. Vou esperar que esta vertigem passe rapidamente. Aí tudo voltará ao seu lugar e o tempo passará por nós como brisa que vem do mar e acalma o espírito. Guardo um meio sorriso nos lábios composto por uma última palavra, talvez inacabada, ou que ainda não foi proferida. Assim, assente sobre este equilíbrio ténue, sigo a minha vida, ciente de que bastará um vento mais forte ou uma palavra esquecida para me condenar ao desmoronamento. Mas sigo a vida...

Ideias sem sentido

Ainda recordo quando quis escrever uma frase, uma única frase que me enchesse a vida de alegria e me ofertasse a paz absoluta... Ao sentir um cansaço que não mais estagnava, não chegara ainda a descobrir as palavras mágicas ou uma vírgula que fizesse a diferença. Sei agora que o que procurava não era uma frase, mas ideias sem sentido que se formassem na cabeça, e que me deixassem extasiado, quiçá num eterno sonho acordado. E nesse sonho as letras e palavras imaginárias convivem lado a lado, numa realidade imaginária que dura segundos e logo desvanece, e parte para outra paragem, para um sítio onde tudo seja organizado e coerente, parte para longe de mim.

terça-feira, julho 05, 2005

E assim começa...

... bode expiatório
- bode
- lolol
... é o nome do meu blog
... heheh
- dps da-me o url pa eu ir comentar!
... pera
... inda n o fiz

De uma conversa ocasional nasce o desejo de criar um blog, uma janela aberta ao mundo. A ideia já tinha ocorrido, mas faltou iniciativa... Mas como uma grande amiga me diz, não posso guardar tudo para mim; e na falta de alguém que ouça, escrevo para ser ouvido.